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Claudia Camacho

Olá Cláudia,desde já muito obrigado pela tua disponibilidade para responder a estas questoes.

Sigo te a algum tempo, principalmente quando assisti a uma prova tua com a Casa Amarela (Douro), e achei super interessante como guias-te a prova.

Por isso adorava dar a conhecer a quem me segue a tua história, 

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Quem é a Cláudia Camacho?


Penso ser um conjunto de experiências, conhecimentos e sensibilidades adquiridas ao longo da Tempo. Sou licenciada em História da Arte, Mestre em História da Arte Contemporânea, tenho formação em Violino, em Fotografia, em Arte Floral e, em 2018, especializei-me em Perfumaria, área onde, actualmente, desenvolvo diversas actividades concomitantes. No fundo, sou muito ciente de uma finitude e, talvez por isso, nunca tenha sido minha intenção ser apenas uma Cláudia, mas sim várias Cláudias.

 

Podias-nos falar um pouco sobre a tua trajetória como perfumista? Como
começaste a interessar-te por fragrâncias?

Ninguém se torna perfumista de um dia para o outro. Estamos a falar de uma área que
exige treino de décadas. Interesso-me por cheiros, perfumes e aromas desde que me conheço. Não consigo balizar um tempo ao certo, mas desde sempre me deixei deslumbrar pelo poder das fragrâncias. A minha mãe teve um papel fundamental nesse processo. Inebriavam-me todos os perfumes que usava.

Qual foi o ponto de virada na tua carreira que te levou a aplicar o teu
conhecimento de perfumaria no estudo dos aromas do vinho?

O ponto de viragem, ou seja, aquele momento em que me afasto de 17 anos como profissional na Gestão das Artes, ocorreu após a morte da minha mãe. O casamento entre perfumes e vinhos fez-se um pouco mais tarde. Teve a ver com uma experiência curiosa. Comecei a ter contacto com o vinho relativamente tarde e, durante muito tempo, assisti a uma pressão social fortíssima para o consumo de álcool. Quem não bebe não é feliz, quem não bebe não se sabe divertir, e por aí fora. Em jantares mais “romantizados” o clima ficava sempre estranho quando eu comunicava que não bebia álcool. Até que encontrei uma pessoa, que ao contrário das outras, e apesar de gostar muito de vinho, não fez grande espanto e até se disponibilizou a pedir outra bebida. Ora, foi aí que se fez o clique. Eu como funciono muito com psicologia invertida, fiquei com vontade de experimentar um vinho. Pedimos um branco, do qual gostei imenso. Após
esse passo, comecei a ler algumas críticas sobre vinhos e percebi que a linguagem arrogante e hermética que encontrei tantas vezes no mundo da Arte se via ali também replicada. Foi aí que percebi que o mundo do vinho precisava urgentemente da ajuda de uma perfumista, profissão que mais entende de nariz, para desconstruir alguns conceitos sem sentido.


Muitas notas encontradas em perfumes também aparecem nas descrições de
vinhos (como flores, frutas ou madeiras). Quais são as principais diferenças na
forma como esses aromas são percebidos em cada caso?

O mercado dos perfumes utiliza a definição de notas de topo, coração e fundo (base), para que o cliente tenha ali uma breve noção da família olfactiva a que pertence o perfume e, na verdade, é assim que um perfume se constrói, tendo como princípio a chamada pirâmide olfactiva. A perfumaria utiliza um vocabulário aromaticamente abrangente: resinoso, florestal, herbáceo, narcótico, fecal, difusivo, canforado, balsâmico, etc. Contudo, estamos a falar de como vender, em termos de marketing, um perfume, um conceito. Porque na verdade, um perfumista raramente fala nesses termos.
A carreira de um perfumista é reconhecer de forma muito pessoal o comportamento de milhares de matérias-primas. Vou dar um exemplo: quando na perfumaria ou nos vinhos se fala em “florais”. Acham que quem já andou a estudar, durante anos, o comportamento olfactivo de um cravo, de uma rosa (qual tipologia de rosa?), de uma violeta, de um narciso, de uma magnólia, de uma flor de laranjeira, de uma esteva, fala
em “floral”? Isso não é nada para um perfumista. Acham que quem já fez a análise
comportamental olfactiva de um limão, de uma lima, de um yuzu, de uma toranja, de um cedrat, e que conhece o comportamento de todas estas matérias-primas de olhos fechados, resume o seu cheiro a “cítricos”? O que quero dizer com isto? Um perfumista quando ouve falar em flores não sabe do que estão a falar. Ou seja, o comportamento das flores é tão diferente entre si que é uma afronta dizer que algo cheira a flores. São mundos complexos, e acreditem, muito menos poéticos do que os aromas que são designados nos vinhos. O comportamento das matérias-primas naturais é muito dançante, trabalhamos com tempos, percentagens e tudo isso modifica a ideia estanque que se tem de determinado cheiro. A grande questão é esta: um perfumista tem a humildade de se silenciar em relação ao que cheira (respeita a infinitude comportamental da matéria-prima), já no mundo dos vinhos faz-se um alarido completamente irreal e falacioso.

 

Na tua opinião, qual é a diferença mais marcante entre identificar notas num
perfume e detectá-las num vinho?

Não há grande diferença e por isso é que eu batalho tanto, através das formações que dou, para desconstruir os mitos de quem diz que consegue identificar mil e um cheiros nos vinhos. É mentira. Num vinho monocasta, com mais facilidade conseguimos identificar os aromas primários. Sabemos que determinada casta tem determinada apetência para cheirar a. Quando temos um blend (portanto, várias castas com apetências olfactivas diferentes) e começamos a adicionar todos os compostos olfactivos do processo de fermentação e do processo de estágio, o cenário complica-se. É exatamente aquilo que acontece na construção de um perfume. Um perfumista não faz
um perfume com três matérias-primas. Isso chama-se um acorde. Vamos contruindo um perfume através de vários acordes. Temos notas mais fortes, outras mais fracas, outras onde a volatilidade é notável, outras com pesos consideráveis, outras que abrem, outras que vão fechando, umas notas que sufocam as outras, mesmo quando trabalhamos com percentagens mínimas, outras notas que abrem as restantes, etc. Ora, é isso que também acontece num vinho. Se eu juntar um cedro com uma pimenta rosa eu construí uma nova composição aromática. E já não vou identificar tão bem nem o cedro nem a
pimenta rosa. O enólogo não pode controlar tudo. Não acredito em quem identifique mais do que três a quatro aromas num vinho. Já está a inventar. Mas há quem faça disso profissão. (risos)

Existe algum tipo específico de vinho que acreditas ser particularmente desafiador
ou intrigante para analisar sob a perspectiva de um perfumista? Porquê?

Por sinal, os que eu mais gosto; os que envelhecem em barricas de carvalho (ou outra madeira). São extremamente desafiadores. Porque o envelhecimento vai fazer magia na composição final. Todas as notas que se libertam no processo de estágio podem ser mágicas. E quase sempre abafam outras que também poderiam ser incríveis. As notas “amadeiradas” são notas de fundo, de base, têm a capacidade de se sobreporem às restantes.


Em termos culturais, como vês a relação entre os perfumes e os vinhos em
diferentes regiões do mundo? Há alguma região específica que destaca essa
conexão de forma singular?

Tenho por hábito dizer que a maior arrogância que cometemos nas provas de vinhos é pensarmos que um brasileiro, um americano, um indiano ou um alemão irão percepcionar os mesmos aromas que determinada pessoa, que está a orientar a prova de vinhos, diz que encontra no vinho. O perfume é, principalmente, uma questão cultural.
A percepção aromática tem a ver com as nossas memórias olfactivas. Quem vive na Índia reconhece imediatamente uma quantidade de especiarias com as quais nós nunca tivemos contacto. Uma pessoa do Brasil tem um contacto enorme com os cheiros das frutas tropicais que nós, se calhar, nunca vimos na vida. Se nós dissermos, numa prova em Portugal, que determinado vinho cheira a esteva, qualquer pessoa que não seja da Península Ibérica vai ter muita dificuldade em perceber sobre que cheiro estamos a falar, já que a esteva é uma espécie endémica.


Algumas pessoas associam certos perfumes a memórias emocionais específicas. Da mesma forma, achas que existe uma ligação emocional similar entre vinhos e experiências pessoais? Como é que isso pode influenciar a percepção dos aromas?
Nos dois casos, nos perfumes e nos vinhos, há uma associação à memória, mas o
caminho é feito de forma diferente. Eu não bebo perfumes, em cheiro-os. E o olfacto é o único sentido que está directamente ligado ao cérebro, ao sistema límbico, ao hipocampo. Há uma conexão imediata para reconhecermos momentos, pessoas, através do reconhecimento do que estamos a cheirar. Os outros sentidos já são processados, primeiramente, pelo Tálamo. E o vinho é essencialmente paladar. Ninguém vai comprar um vinho só para o cheirar. As pessoas compram vinhos para beber. Portanto, associamos a momentos de boa companhia, a uma boa refeição, por aí.


Para alguém interessado em desenvolver um paladar mais refinado para vinhos ou perfumes, quais seriam os teus conselhos para melhorar a sensibilidade olfativa?
Cheirar, cheirar, cheirar. E, apesar de ser complexo porque não está ao alcance de todos, fomentar o estudo pelo que se extrai das espécies, das matérias-primas. Assim, em vez de dizerem que um vinho cheira a “fumo”, já poderão associar esse “fumo”, por exemplo, ao óleo que se extrai da bétula branca. São entendimentos totalmente diferentes.


Qual é o momento mais memorável da tua carreira em que conseguiste unir os
conhecimentos sobre perfumes e vinhos de forma significativa?

Sinto que o momento que me lançou, e agradeço-lhes imenso por isso, foi o convite que me foi feito para falar sobre a questão olfactiva nos vinhos, na primeira edição da Wine & Travel Week, na Alfandega da Fé, no Porto, em 2023. Dos melhores eventos aos quais assisti, em Portugal. Ainda hoje recebo contactos vindos daí. Fui para lá muito descontraída, a pensar que ia apenas falar sobre o que domino e, de um momento para o outro, senti que abri uma Caixa de Pandora num mundo de profissionais que não se identifica com estes descritores que muitas das vezes fazem dos seus próprios vinhos (nas revistas da especialidade, nas críticas), um mundo cheio de mitos que precisava de
desconstrução.


Se pudesse escolher apenas um aroma para representar tanto a arte da perfumaria
quanto a refinada experiência do vinho, qual seria e por quê?

O óleo essencial da Vitis Vinifera. Dou a cheirar e são muito poucos os que o
reconhecem, mesmo trabalhando diariamente a vinha.


Sei que tens um projecto Portugal By Nose, podes falar sobre ele?
De uma forma muito resumida: a Portugal by Nose – Rota Olfactiva de Portugal é uma abordagem olfacto/turística com foco no mundo rural. É uma ideia totalmente inovadora na forma de pensar o turismo com uma preocupação na sustentabilidade, nas novas formas de ver/sentir, nas pessoas, no saber local, na tradição gastronómica, nas raízes. O Olfacto é quem dá o mote para todas essas experiências.


Agora para terminar, Diz-me o que significa para ti em duas palavras:
Perfumes;
Vinho;

Vou escolher só uma até porque, ainda este ano, lanço um belo produto para o mercado do Enoturismo: Embriaguez. Mas, atenção, no sentido de êxtase. Não ando a fomentar a bebedeira em ninguém (risos).

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